Seis Dias Trabalharás

06 – SEIS DIAS TRABALHARÁS
 
            “E seja sobre nós a graça do Senhor nosso Deus: e confirma sobre nós a obra das nossas mãos; sim, confirma a obra das nossas mãos” (Salmo 90:17).
            “E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (João 5:17).
            Foi dito que a um dos antigos santos que estava lavrando sua horta, aproximou-se um discípulo, que lhe fez a seguinte pergunta:
“Que farias tu, irmão, se soubesses que esta é a última hora de sua vida?”
A resposta foi clara e tranqüila: “Terminaria de lavrar este sulco de feijões”.
            Uma atitude semelhante em que alguém conheça e põe em prática a vontade de Deus, no viver diário, deveria ser uma realidade na experiência da cada cristão. O crente que executa suas tarefas diárias, com a convicção de isso
ser o que Deus quer que faça, realiza seus trabalhos com maior determinação e segurança do que as pessoas que não têm essa certeza. Nunca, desde os tempos antigos, houve na história da humanidade, uma maior preocupação relacionada com a formulação de uma doutrina satisfatória que vincule a fé cristã, e o mundo trabalhador. Esse interesse em uma adequada relação entre a fé cristã e as tarefas diárias do trabalhador, tem várias raízes e diversas expressões.
Na grande expansão industrial dos últimos séculos, o trabalho vem sendo um alvo e um deus para incontáveis milhões de criaturas humanas.
A aparição do comunismo como um movimento mundial, com sua definida preocupação com as classes trabalhadoras, tem chamado a atenção do mundo, como  nunca antes, para o trabalho e para os trabalhadores.
Ao mesmo tempo, as atividades do movimento trabalhista, através do mundo, trouxeram uma nova ênfase à esfera do trabalho diário.
            A era atual tem sido chamada de a era do homem comum e o século das finanças. Ambas referências refletem o sentimento do homem moderno sobre o significado do trabalho. Mais e mais, os cristãos estão entendendo que Deus se preocupa, não somente pelo que acontece nas Igrejas, aos domingos, mas pelo que acontece nas fábricas e outros campos de trabalho nos outros seis dias da semana. Os cristãos europeus, depois da segunda guerra mundial, redobraram seus esforços para estreitar mais a relação da fé cristã com os problemas trabalhistas. E no que concerne aos Estados Unidos, lançou-se mão de numerosos projetos, conferências, estudos, comissões e experiências, com o desejo sincero de estabelecer uma mais íntima relação entre a experiência religiosa e as ocupações diárias.
            O cristão que leva a sério, não somente o chamado de Deus a crer e obedecer aos Seus mandamentos, deve, necessariamente, sentir-se responsável,
Não somente ao que faz aos domingos, mas também ao que faz nos outros seis dias da semana. O cristianismo nunca é inútil; sempre há algo bom a dizer sobre os problemas da vida; e por certo, tem muito a dizer sobre os problemas trabalhistas. O cristianismo preocupa-se pela classe de trabalho que alguém, escolhe, pela qualidade do trabalho que alguém executa, do uso que fazemos do tempo nas horas do trabalho, com as práticas comerciais e morais do trabalho que são seguidas, e se é usado o trabalho diário como uma oportunidade para elevar o nível moral do homem, mediante palavras e atos inspirados por um amor generoso e altruísta.
            Muitas pessoas gastam mais tempo no trabalho do que em qualquer outra atividade. Poucas pessoas separam, pelo menos, a metade das horas que não estão dormindo, dedicando-se algum tipo de trabalho.
Cremos que, normalmente, a metade de nossas energias são empregadas no trabalho. É bem definido: se a religião não tem uma mensagem clara e concreta, que se relaciona com o nosso trabalho, nossa religião não terá participação em uma importantíssima esfera de nossa vida, correndo o perigo de aparecer como algo desnecessário.
            É de se esperar que o atual interesse de relacionar mais intimamente o cristianismo com os trabalhos diários, serve para fortalecer a influência cristã no
Mundo trabalhista, onde se vive grande parte da vida. É, também, de se esperar,
Que a conduta cristã na esfera do trabalho diário, seja transparente e respaldada pela apresentação e discussão de uma doutrina bíblica referente ao trabalho, ao conceito cristão  da vocação, e à criação de planos e meios para fazer com que o testemunho cristão, em relação ao trabalho diário, seja mais efetivo.
 
O PONTO DE VISTA BÍBLICO SOBRE O TRABALHO
 
            A doutrina bíblica com respeito ao trabalho, é igual que em outras matérias:
Não se apresenta sistemática e definitivamente. A compreensão destra doutrina exige que consideremos, não somente a Bíblia, no que ela diz sobre o trabalho, como também as palavras que a Bíblia emprega para referir-se ao mesmo, a maneira como essas palavras são usadas correntemente, e a luz que sobre este tema joga a percepção intuitiva bíblica sobre assuntos intimamente ligados com tudo isso, como são os conceitos de liberdade e responsabilidade.
            Na Bíblia há dúzias de verbos e substantivos que são traduzidos pela palavra “trabalho”, e que se referem a atividades de Deus e do ser humano.
Na realidade, as palavras têm uma variedade de significados afins, como: “trabalho, criação, obra, poder, formação, ato, serviço, substância, energia, negócio, fadiga e labor”. O conceito bíblico do trabalho é sumamente amplo, todo relacionamento com ação, desde o sublime e inefável ato de Deus na criação, até a mais humilde e insignificante tarefa de um escravo.
            A Bíblia ensina que Deus é um trabalhador (João 1:1,2). Deus criou o universo e é o dono de tudo, Seu trabalho inclui não somente a criação como também a redenção. E esse trabalho é de ordem física, Omo é também de ordem espiritual. Deve ser aceita como uma atitude eterna, porque Deus trabalhou, trabalha e trabalhará.
E, contrariamente aos demais deuses dos antigos pagãos, que não se sentiam preocupados pelas necessidades dos seres humanos, Deus está ativamente empenhado em trabalhar para aliviar as necessidades da humanidade.
Quando Jesus foi censurado por haver curado, em um dia de sábado, a um homem que estava enfermo havia trinta e oito anos, se defendeu dizendo: “Meu Pai até agora trabalha, e eu trabalho também” (João 5:17). E em outra parte disse: “Convém que eu faça as obras daquele que enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (João 9:4). A Bíblia apresenta dois aspectos do trabalho de Deus: Sua obra criadora e sua obra redentora. Não há dúvida de que a Bíblia O apresenta como um trabalhador.
            Em vista de o homem ter sido criado à imagem de Deus (Gênesis 1:26,27), Ele também é um trabalhador. Depois de criá-lo “E tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar” (Gênesis 2:15)
Portanto, antes da queda, o homem já tinha a responsabilidade de trabalhar.
Assim mesmo tinha a missão de subjugar a terra, lavrando-a e cuidando-a, e exercendo sobre ela o domínio que Deus lhe apontara, no qual Deus seria glorificado.
            Às vezes, argumenta-se que o trabalho é uma maldição que o homem atraiu sobre si devido à desobediência,e concede-se base à esta opinião com a passagem de Gênesis 3:17-19: “E a Adão disse: Porquanto destes ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela: maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também, te produzirão; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornas à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó, em pó te tornarás”.
            Porém esta maldição não é parte integrante do trabalho em si. O pecado do homem é a causa dos efeitos da maldição sobre seu corpo, sua mente, sua alma, seu ambiente, seu governo, sua sociedade humana e também seu trabalho. O pecado transformou o trabalho em uma enfadonha tarefa. A sinistra alquimia do pecado transformou o trabalho em uma enfadonha tarefa. A sinistra alquimia do pecado converteu o gostoso labor do trabalho, em uma onerosa carga.
De alguma maneira o pecado tem influído na reprodução de “espinhos e cardos”, da mesma maneira na produção do suor, da dor, do sofrimento, afazeres e dificuldades, contrariamente ao propósito original de Deus.
            Embora o trabalho tenha perdido seu caráter original de gozo e liberdade, contudo continua sendo uma ordenança divina que se aplica, todavia, às pessoas redimidas. O apóstolo Paulo explicitamente admoestou aos que se haviam imaginado que estavam isentos da responsabilidade de trabalhar:”Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quer trabalhar, não coma também” (II Tessalonicenses 3:10). Os evangelhos apresentam a Jesus Cristo, não somente como “o filho do carpinteiro” (Mateus 13:55). Como também “o carpinteiro” (Marcos 6:3). Esta referência como fortuita ao fato de que Jesus “um artesão”, palavra que geralmente é traduzida como
“carpinteiro”, não se deve exaltá-la além de proporções razoáveis: pois se é certo que os habitantes do povoado onde Jesus vivia olhavam-no como um obreiro que usava as suas mãos para trabalhar, também é certo que a preocupação principal de Jesus era sua obra redentora: “Jesus disse-lhes: AS minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” (João 4:34); “E Jesus lhes respondeu: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (João 5:17); “Eu
glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer” (João 17:4).
Entretanto Ele, mais do que qualquer outra pessoa, exaltou o trabalho manual,
colocando-o em um nível superior, da mesma maneira que a todos os demais trabalhadores. Os trabalhadores do mundo que se uniram sob a bandeira do comunismo, convidados por KARL MARX, fariam melhor se colocassem o seu futuro sob a bandeira do carpinteiro Rei, que dignificou o trabalho, porém é suficientemente sábio para não o divinizar.
            Os filósofos gregos olhavam o trabalho como uma tarefa degradante, própria para os escravos e dos mais humildes servidores.
Para eles a contemplação era o trabalho apropriado para os homens livres, que tinham a responsabilidade de preserva a cultura. O homem ideal era o cavalheiro endinheirado, cuja vida cômoda estava isenta de trabalho, afazeres, cuidados, tarefas e cargas. O conceito bíblico do  trabalho é diametralmente oposto à idéia dos filósofos gregos. Concede grande valor à diligência, responsabilidade, retidão, dever e justiça. A Bíblia olha o trabalho como algo natural e necessário e ignora uma suposta hierarquia em que os intelectuais ocupem o nível superior da escala, e os trabalhadores manuais, o inferior. Os rabinos judeus tinham que ganhar o pão com o suor de sua fronte. O apóstolo Paulo obtinha o seu sustento econômico fabricando tendas, e aconselhava que outros fizessem o mesmo: “Porque também já assim o fazeis para com todos os irmãos que estão por toda a Macedônia.
Exorto-vos, porém, a que nisto abundeis cada vez mais. E procureis viver quietos, e trabalhar com vossas próprias mãos, como já vo-lo temos mandado. ¨”Para que andeis honestamente para com os que estão de fora, e não necessiteis de coisa alguma” (I Tessalonicenses 4:10-12).
            O trabalho biblicamente analisado ocupa um lugar essencial na vida do cristão. Entretanto, nós encontramos na Bíblia a tendência de glorificar o trabalho de uma maneira exagerada. Esta tendência apareceu, relacionada com a revolução industrial, quando o materialismo veio a ser uma tentação para um grande número de pessoas. Muitos secularistas, tanto ricos como pobres, têm encarado o trabalho, como sugere EDWARD G. HARRIS, “toma conta de homens cujas almas estão vazias e inquietas, e que se dedicam a ele com tanta paixão que perdem de vista as qualidades humanas do descanso e do lazer”.
Nessa enfatuação temos a idéia de que a vida consiste na produção e consumo de bens materiais, o qual chega ao resultado de que o trabalho vem a ser uma mania incontrolável que reduz à escravidão os seres humanos.
Esta atitude fanática referente ao trabalho produz a sensação de culpa se alguém não trabalha, e, curiosamente, está de acordo com a opinião marxista de que os bens materiais constituem a substância da vida, como assim mesmo as mais altas e genuínas realidades. A recriminação que Jesus fez a Marta foi provocada pela exagerada compulsão pra trabalhar que ela mostrava, compulsão que dominava sua vida. O elogio que Ele dirigiu a Maria foi inspirado pela sua sábia atitude de subordinar o trabalho à satisfação de gozar a companhia do Mestre (Lucas 10:38-42). Na Bíblia nunca se contrasta a fé que salva e as boas obras. O que se contrasta é a fé e os atos legalistas que costumam ocupar o lugar da graça de Deus. O significado essencial da vida não se expressa em termos de trabalho ou de obras. A salvação não é obtida mediante as boas obras, senão mediante a graça de Deus. A justificação nos vem mediante a fé em Jesus Cristo (Gálatas 2:16). A posição cristã em relação ao trabalho, em geral, e às boas obras em particular, e que a fé salvadora ensina a limitação do trabalho como elemento meritório na salvação, e o significado do trabalho como parte vital da ordem divina. A Bíblia ensina, ademais, que o trabalho intencionalmente executado, formará parte da ordem que encontraremos no céu onde “seus servos o servirão”, quer dizer, a Deus (Apocalipse 22:3).
            O  que TOMÁS CARYLE escreveu em “SARTOR RESARTUS” enquadra, dentro do conceito essencialmente bíblico referente ao trabalho: “Existem dois homens aos quais sendo tributo, e não a um terceiro. O primeiro é o causado artesão, que com ferramentas rústicas, laboriosamente conquista a terra e a converte em propriedade do homem. Olho com veneração a mão endurecida, torcida e tosca, onde sem dúvida, encontramos uma virtude sutil, irrevogavelmente
real, como o cetro deste planeta. Venerável também é para mim o rosto enrugado, curtido pela perturbação atmosférica, manchado e com marcas de sua rude inteligência, porque é o rosto de todo um homem que reflete a humanidade.
Sim, e mais venerável ainda por sua rudeza, e porque inspira compaixão ao mesmo tempo que inspira amor. Irmão duramente tratado ! Para o nosso benefício
Tens as costas encurvadas, por nós tens braços retos e dedos deformados; tu foste nosso concristo sobre quem recaiu a sorte, e que por lutar nossas batalhas ficaste tão desfigurado. Em ti havia um modelo criado por Deus, que não teve a oportunidade de se desenvolver; encostado, há de ficar com calosas aderências e deformações produzidas pelo trabalho. Tanto teu corpo Omo tua alma não haveriam de conhecer a liberdade. E, sem dúvida, trabalha e continua trabalhando. Tu estás cumprindo com teu dever embora outros não cumpram; tu te empenhas pelo que de todo indispensável, pelo pão de cada dia. “O segundo homem a quem eu rendo homenagem, e um ainda mais elevado, é aquele que trabalha, não pelo pão matéria. De cada dia, senão pelo pão espiritual da vida.
Não está também ele no caminho do dever, em procura da harmonia interior, em atos e em palavras, por meio de todos os seus esforços, sejam baixos ou sejam altos? Se nos apresenta maior quando seus esforços internos e externos se unem, e então o chamamos ARTISTA; não um simples lavrador, mas um pensador inspirado que com uma ferramenta celestial conquista o céu para nós. Se o pobre e humilde se emprega para que tenhamos pão, não haverá de trabalhar com afã o afortunado e privilegiado, que por sua vez, para que os humildes tenham luz, direção, liberdade e imortalidade?  A estes dois, em todas suas graduações, eu presto homenagem: todos os outros são palha e pó que o vento leva.
            “Inefável emoção me produz o encontro das duas dignidades juntas, quando o que trabalha fisicamente para suprir as mais simples necessidades humanas, trabalha também para satisfazer as mais sublimes. Nada existe neste mundo mais sublime que um camponês Santo, se pudesse se encontrado em algum lugar. E se o encontrarmos, nos há de conduzir a Nazaré, onde veremos o esplendor do céu sair das profundezas da terra, como a luz que brilha em meio de profundas trevas”.
 
O CONCEITO CRISTÃO DA VOCAÇÃO
            Vocação e trabalho diário são dois termos que são usados alternadamente.
Os dicionários costumam definir a palavra vocação como emprego regular, profissão ou qualquer ocupação à qual alguém dedica a vida.
É evidente, entretanto, que a idéia bíblica do trabalho diário e o ensino do Novo Testamento acerca da vocação ou chamado, são duas coisas mui distintas.
Se é certo que o cristão deve conhecer a relação existente entre o seu chamado e o trabalho diário, também o é que deve estar em condições de conhecer a diferença que existe entre os dois, evitando, assim, uma desnecessária e trágica confusão.
            O conceito cristão do “chamamento” é um assunto de vital importância no Novo Testamento. O significado fundamental do conceito está vinculado ao convite que Deus generosamente faz aos homens para que aceitem Sua gloriosa salvação. Suas raízes estão profundamente fixadas no Antigo Testamento. Abraão foi chamado a ir, pela fé, a uma terra que Deus iria lhe mostrar (Hebreus 11:8).
Moisés foi chamado para libertar Seu povo da escravidão do Egito (Êxodo 3:10). Isaías mesmo foi chamado para entregar a mensagem de Deus, de juízo e graça, a Israel em uma hora de crise profunda (Isaías 6:8). Israel mesmo foi chamado pelo Senhor para ser sacerdócio santo, mediante o qual a luz de Deus sobre a redenção haveria de dar-se a conhecer a todo o mundo (Isaías 42:5-7).
            No Novo Testamento a idéia sobre o chamamento está mais desenvolvida que no Antigo, ainda que, essencialmente, não é distinta.
            A palavra KLESIS que aparece no Novo Testamento sempre se traduz por “chamamento”, com exceção de Efésios 4:1 onde é traduzida por “vocação”.
Significa o chamado de Deus para a salvação mediante o arrependimento e a fé em Jesus Cristo. É o chamado de Deus a todos os homens e em todas as partes para que formem parte da igreja de Cristo, ou seja, a congregação dos chamados ou convocados, e logo conduzir-se como responsáveis filhos e filhas do Pai celestial.
            O chamado de Deus no Novo Testamento, segundo o uso da palavra KLESIS,  é !irrevogável” (Romanos 11:29); se estende, sem levar em conta, a classe ou posição social (I Coríntios 1:26). É eternamente válido (I Coríntios 7:20); caracteriza-se pela esperança de coisas melhores no futuro (Efésios 1:18; 4:4); é “supremo” no sentido de que guia o crente no caminho para frente e para cima, tendo como alvo a final consumação da salvação (Filipenses 3:14).
É um estado elevado para o qual somente Deus pode preparar ao homem (II Tessalonicenses 1:11); é santo (II Timóteo 1:9); é celestial (Hebreus 3:1); e deve ser confirmado pelo fervor, quando a fé está suplementada pela virtude, conhecimento, domínio próprio, paciência, amor fraternal, e amor (II Pedro 1:5-10).
            No sentido bíblico Deus não chama aos homens para determinadas profissões ou ocupações, senão que os chama para que venham a Cristo.
“A Bíblia não tem nenhum exemplo de que alguém haja sido chamado por Deus para uma profissão secular ou ofício. Por exemplo, o apóstolo Paulo foi chamado por Deus para ser Seu apóstolo, e não foi chamado para “fazer tendas”. Isto não quer dizer que os cristãos não tenham dons especiais e diferentes, que os capacitem para levar a cabo, úteis e necessárias funções no serviço de Cristo, tanto na igreja como no mundo. Em Efésios 4:11 lemos: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores”. Também “há diversidade de dons” que retratam a obra do Espírito de Deus (I Coríntios 12:4). Nem todos os membros do corpo de Cristo, que é a Igreja, têm a mesma função; porém todos compartilham esse chamamento supremo pela graça, mediante a fé pessoal em Jesus Cristo.
            Até a época da Reforma, o conceito do chamamento havia-se desbotado bastante. Uma dupla norma, sem base bíblica, havia surgido, na qual os clérigos ocupavam posto mais alto na igreja católico-romana, e os leigos ocupavam o mais inferior. Tanto Lutero como Calvino incorporaram em seus ensinos o ponto de vista bíblico, de que Deus estende seu chamado básico para a salvação, mesmo às pessoas mais humildes, e que a obra de Deus pode ser levada a cabo, não somente nos monastérios e conventos, como também nas lavouras e fábricas.
Deus não faz diferença, quanto a valores, entre o trabalho “eclesiástico” e o “secular”. Tais distinções são uma criação dos homens, artificiais, perigosas e completamente alheias ao cristianismo do novo Testamento. A verdadeira companhia cristã nunca teve uma hierarquia de membros, senão que eles são olhados como a grande família dos redimidos, na qual todos são irmãos, pensando que Jesus Cristo é o irmão maior.
            Para tanto, o chamamento ou a vocação cristã no sentido bíblico, pode ser estudada como a armadura da vontade de Deus que, quando se aceita voluntariamente, pode dar ao trabalho diário seu verdadeiro valor e significado.
“O trabalho diário é o que os homens exercem para ganhar o seu sustento; a vocação cristã é uma maneira de interpretar e apreciar o que fazem”. Pata o cristão, o trabalho diário nunca pode ser estimado como sua vocação; o trabalho é mais, corretamente, o meio de expressar sua vocação ou  chamado.
            A vocação cristã não  é equivalente ao trabalho diário, porém não é o desejo de Deus que esse trabalho seja excluído do chamamento cristão. Este chamamento vem de Deus, e está dirigido diretamente a cada pessoa, e ninguém é excluído, porque Deus não quer “que ninguém pereça, senão que todos se arrependam” (II Pedro 3:9).
Deus chama aos homens para que se arrependam e creiam no Senhor Jesus Cristo como Salvador e Senhor. Esse chamado envolve uma entrega radical a Deus em todas as esferas e relações da vida, incluindo o trabalho diário.
 
EM DIREÇÃO DO TESTEMUNHO CRISTÃO MEDIANTE O TRABALHO DIÁRIO
 
            A redenção cristã inclui a redenção total do homem, não somente quando está no templo, senão também, quando está no  trabalho.
Quando o cristão responde ao chamado de Deus e acha que Cristo o salva de todos os pecados de sua vida – em corpo, mente e alma – recebe por meio de Cristo uma transformação que abrange o trabalho diário, como também as demais esferas e relações da vida.
            Sem dúvida, o cristão não permanece inerte, esperando que Deus transforme seu trabalho diário em algo que seja milagroso e maravilhoso em seu efeito. Pelo contrário, empenha-se seriamente a fazer tudo quanto pode para formar parte deste processo. Esta atitude do cristão que demonstra sua responsabilidade pessoal, é necessária para a formação de uma testemunha cristã competente. Essa dedicação do cristão leva-o a selecionar seu trabalho diário cuidadosamente, efetuar sua tarefa com boa vontade, e fazer o trabalho conscienciosamente. Também, busca a ajuda de Deus para continuar encontrando em seu trabalho diário um significado cristão. Eleva a importância de sua atuação pessoal ao ponto de honrar a Jesus Cristo, e olha o seu trabalho fundamentalmente como um meio de glorificar a Deus.
            Um testemunho cristão efetivo e influente mediante o trabalho diário depende, em parte, da classe de trabalho que o cristão executa.
E sobre esse assunto devemos reconhecer que em alguns casos a seleção é mui reduzida. O ser cristão não muda as limitações naturais sobre a escolha de um trabalho, por exemplo: para um moço que vive em um povoado de mineradores de carvão, ou para uma moça que vive em um bairro pobre nas grandes cidades.
A geografia, as relações sociais, as necessidades econômicas ou uma compreensão inadequada de nossos talentos ou capacidades, influem na escolha de um emprego.
            Há muito romantismo e, em realidade, desatino, na noção de que todos os homens e mulheres deveriam encontrar um emprego, no qual cada um deles possa manifestar sua personalidade ao máximo, e que os experimentados em carreiras comerciais, agências de empregos, e psicólogos vocacionais tiveram campo livre, cada pessoa podia encontrar seu recôndito ideal no cenário social.
            Assim, todo cristão procura achar um emprego cuja atividade esteja bem próxima da vontade de Deus tanto quanto possível. A oração, o estudo bíblico, o talento pessoal, os interesses, inclinações e circunstâncias, o sentido do que uma pessoa precisa, e a convicção de uma direta direção de Deus, podem influir na escolha de um emprego. Em última análise é da máxima importância que o cristão siga a direção de Deus na escolha do emprego ao qual irá se dedicar em seu trabalho diário.
Seguramente, muitos conselheiros vocacionais não aconselharam a ALBERT SHWEITZER que fosse servir na África, porém é evidente que foi bem melhor que ele tivesse ido a África, obedecendo à vontade de Deus, do que tivesse permanecido na Europa, segundo muitas pessoas o aconselharam, porém, sem a  aprovação de Deus. Considerando que algumas classes de trabalho não são necessárias para o bem-estar da pessoa, nem oferecem glória ao nome de Deus, é de se esperar que não sejam eleitos pelas pessoas que hão experimentado o chamado de Deus. Assim mesmo, o trabalho trivial será posto de lado, devido ao fato de nos levar a fazer mau uso do tempo, que deveria de ser empregado em um mais completo serviço de Deus.
            Aquele que deseja oferecer um significativo testemunho cristão nas tarefas que executa em seu emprego , deve realizá-las de boa vontade, com a certeza de que até em um emprego que não seja satisfatório, o chamado de Deus poderia produzir ricos frutos. Além disso, deve efetuar seus trabalhos com acerto.
Cumprir o chamado de Deus em relação ao trabalho  diário não é somente permanecer em um determinado posto, senão em emprestar ao seu trabalho, toda a habilidade de que seja capaz. Devemos fazer nosso trabalho com a convicção de que Deus é o Chefe principal, que exige de seus subalternos um trabalho bem feito tanto quanto possível.
            Continuando com a idéia do testemunho cristão mediante o trabalho diário, o crente não deve perder de vista o permanente valor do trabalho que executa. Se chegar a crer que seu trabalho não é de vital importância para o bem das criaturas humanas, e também para a glória de Deus, é hora de trocá-lo por outro.
Assim mesmo deve lembrar que seus companheiros de trabalho têm um valor infinito diante de Deus e que por essa razão deve procurar que suas relações sociais e gremiais com seus companheiros reflitam seu testemunho cristão. O obreiro cristão olha os seus companheiros de trabalho, não como dentes de uma engrenagem, nem como degraus de uma escada, nem como membros de uma certa categoria social, senão como seres humanos criados à imagem de Deus, e capazes de manterem a fé em Jesus Cristo.
            É possível que o ponto mais importante que o cristão deve considerar em seu desejo de apresentar um testemunho cristão eficaz mediante o seu trabalho diário, seja a certeza de que esse trabalho é algo que ele oferece a Deus. O trabalho que se realiza “Servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens” (Efésios 6:7), possui uma qualidade satisfatória e frutífera.
O cristão compreende que o trabalho responde a uma necessidade e está baseado em uma necessidade social, e que por isso cumpre a exortação do Apóstolo Paulo expressada em “fazê-lo todo para a glória de Deus” (I Coríntios 10:31). O obreiro cristão que tem uma consciência sensível, olha o trabalho, não como uma simples necessidade ou meio de obter uma recompensa material, mas como um meio de servir a Cristo.
            O obreiro cristão sabe (embora não seja um teólogo) que quando realiza o seu trabalho “como a Cristo, não servindo ao olho como os que querem agradar aos homens, senão como servos de Cristo, de coração fazendo a vontade de Deus”, nesse caso sua recompensa inefável provém “do Senhor” e nisto acha sua liberdade – livre da escravidão do “dever”, livre das ambições de recompensas materiais e de castigos temporais, livre das frustrações de condições limitadas, e livre das ansiedades sugeridas pela sua posição presente, por sua reputação ou por sua “segurança”. Se o seu trabalho prospera, dará graças a Deus porque o abençoou, quando enfrenta perdas e outras dificuldades, sentir-se-á contente porque compartilhará as aflições do Senhor. Sabe que o mundo continua sendo o que era antes de que ele chegasse à experiência espiritual que o Novo Testamento denomina “em Cristo” – um mundo caído; das necessidades econômicas, a injustiça, os dissabores e as dificuldades permanecem, o mesmo que as limitações de sua própria capacidade e caráter, porém, agora, estas coisas já não exercem poder sobre ele, e se sente jubiloso de poder servir a Cristo mediante o seu labor diário.
            O chamamento cristão acrescenta algo extra à vida de cada crente em relação com seu trabalho diário, como EMIL BRUNNER o expressou.
Por exemplo, o obreiro cristão se abstém de comprar sempre nos lugares mais baratos, ou de vender nos lugares mais caros, devido a que olha os seus associados como vizinhos e amigos, mais do que como utensílios econômicos; exerce os privilégios de sua cidadania, não sempre em interesse próprio, senão, tendo em conta, ás vezes, o interesse dos demais, ainda que nele, ele não tenha ganância; quando as o seu dinheiro para benefício próprio e de sua família, tão somente, às vezes usa-o para beneficiar aos que são menos afortunados que ele; e quando “na hora e lugar apropriados diz algo surpreendente”, algo que não somente se refere ao tema central , algo inesperado referente a Deus e os valores eternos, algo que por ser dito em um momento inesperado e de uma maneira inesperada, há de ter um poder mais demonstrativo, será mais atrativo e despertará sãs faculdades mais do que a maioria dos sermões.
            O chamamento cristão transforma o trabalho do cristão, devido ao fato de que o cristianismo afeta não somente o homem interior, como também o homem exterior.
            Se cristãos sinceros e responsáveis pudessem trabalhar juntos para produzir uma nova vida na esfera do trabalho diário, de modo que possa influir decisiva e redentoramente nesta área da vida humana, o cristianismo demonstrará ante o mundo, que é uma força vital e poderosa, naquilo que é mais central na existência do homem comum.
Porém se não consegue gerar essa nova vida, seria como abdica a responsabilidade redentora do cristianismo em favor dos marxistas, dos materialistas e dos pagãos, que muito se alegrariam com a retirada da igreja, deixando para eles o campo livre para levar a cabo a conquista do mundo dos trabalhadores. Porém, Deus não chama aos cristãos para uma derrota, mas para uma conquista, pois os responsabiliza de ser o sal da terra e a luz do mundo, nesta área vital da vida humana, que é o trabalho diário.
 
EBENÉZER!!!
Autoria do Reverendo Romeu Maluhy, pastor da Igreja Presbiteriana

Publicação autorizada pelo Presbítero Romeu Maluhy Junior, pastor e epíscopo

Agradecimentos de Universal Assembléia da Santa Aliança Cristã